Junho 22, 2010

descalça.

Posted in Uncategorized às 8:04 pm por anna21

Quando eu for grande quero ser livre. Quero ser como uma mariposa e bater as asas sobre a brisa morna e as flores e mergulhar devagarinho num mar de erva.

Quando eu for grande quero viajar a pé e conhecer muitas pessoas.

Quando for grande hei-de saber o nome das estrelas e das plantas, e nada há-de ser confuso dentro de mim.

Quando for grande hei-de coleccionar conchas e búzios e prender fitas de todas as cores ao cabelo.

Quando for grande hei-de entender poesia e escrever cartas de amor.

Quando for grande hei-de ler todos os livros que couberem nas minhas mãos … hei-de escutar todas as músicas que couberem nos meus ouvidos e ver todos os filmes e fotografias que conseguirem recolher os meus olhos.

Quando for grande hei-de vestir vestidos brancos, leves, e flutuar como uma pena.

Quando for grande vou querer andar sempre de mão dada…

Quero sentir o mundo, como ele é e mesmo assim aceitar.

Quero recolher promessas no coração, sem nunca as esquecer, e ser-lhes fiel.

Quero escrever palavras simples. Quero ser simples.

Quando crescer hei-de usar perfume, o perfume das flores do campo e da terra molhada da chuva.

Quero encontrar tesouros e esconde-los no meu coração, onde só os sábios ou os arrojados os poderão descobrir.

Quando for grande quero continuar a ver as crianças brincarem como se o mundo fosse uma bola de futebol ou o sorriso de uma boneca.

Quero deitar-me quieta, feliz em lençóis brancos, acabados de passar e adormecer a sorrir, porque no meu coração tudo permanece calmo.

Quero recordar sempre as expressões de todas as pessoas que me criaram e me viram crescer. Quero ajudá-las a caminhar quando elas já não tiverem força.

Quando for grande quero arranjar coragem para me esforçar sempre, para fazer sempre o que for melhor.

Quando for grande quero permanecer serena. Quero seguir os conselhos dos mais velhos.

Quando for grande espero chorar pouco e rir apenas quando fizer sentido.

Quero recordar-me sempre que devo ser cordial e simpática e nunca desamparar ninguém. Mesmo que essa pessoa tenha sido cruel.

Quando for grande quero continuar a brincar e a perder tempo sem fazer nada além de apreciar.

Quero ser inspiração e ser inspirada. Quero seguir o meu caminho com cuidado, mas sentir que pode ser uma aventura.

Quero descobrir mistérios e aprender muitas coisas.

Quando for grande quero ir muitas vezes ao mar… e esperar que ele me ensine algo sobre mim.

Quando for grande quero viver devagar. Luminosa. Paciente. Confiante e presente, acima de tudo presente, em mim e na vida.

Janeiro 25, 2010

Adeus avô.

Posted in Uncategorized às 3:01 pm por anna21

15/16 de Janeiro de 2010

Partiste avô. Partiste com a chuva, com o frio, com a estranha escuridão destes dias cinzentos que não nos levantam a alma e só nos afundam o olhar no nevoeiro silencioso de todos os dias.
Partiste sem aviso, nem morada para onde escrever!
Partiste estranho aos outros, tão comum a mim. Partiste para eles… para mim regressaste apenas à nossa infância, ao sol dourado, como as espigas, à terra fofa depois do bater na tua enxada, aos passeios pelas ruas e ruelas da aldeia, aos teus pães molhados com marmelada…
Regressaste finalmente às cadeiras de madeira antigas, aos teus cestos de vime, à tua bicicleta preta pendurada no antigo palheiro, e aos figos maduros da figueira da eira.
Regressaste pisando o chão e quebrando o silêncio com os teus tamancos de madeira e a tua cana, qual bengala artística, por ti rasgada e talhada!
Eras assim avô… a pessoa que eu chorei naquela igreja escura, e não a figura pequena, encolhida pelo tempo, pessoas e problemas, entalhada entre um rectângulo de madeira, sem ar, nem fala.
Partiste com chuva, mas levaste a Primavera.
No chão debaixo de ti havia flores, dezenas, centenas de flores. Estavas deitado não numa tábua de madeira mas num manto de flores. Todos te trouxeram flores. Previram que era esse o teu desejo? Partir um pouco mais tarde, sentado na tua cadeira de madeira com o sol a bater-te no chapéu gasto e na face rugosa, com a memória pairando-te no olhar e a sabedoria sibilada por vezes num monólogo contigo mesmo.
Eu vi tudo avô! Vi-te, como te via quando era miúda e como esta gente nunca te soube ver. Vi a pomba que entrou na igreja e pousou junto das flores. Mas ninguém entendeu, apenas se enervaram e procuraram apanhar o ‘maldito pássaro’. Eram as tuas pombas avô. As pombas e rolas que tu criavas e que me mostravam quando tinham crias. Eram as pombas que tu curavas e soltavas.
Mas mais ninguém te viu ali.
Nesta última vez não fui eu que te calcei! Porque se tivesse sido tinha-te deixado levar os teus tamancos pregados e usados. E tinha-te vestido a tua samarra velha e posto uma das tuas canas nas mãos.
Mas são as convenções, os rituais, a norma.
Por isso não consegui chorar-te com a mesma dor que eles. Porque não eras tu naquelas tábuas, engessado e frio.
Tu eras a minha infância querida, o sol morno, o tempo das andorinhas e dos figos doces da eira.
Eras o baque da cana no chão, o chapéu erguido em cumprimento.
Eras a companhia certa, raramente ausente.
Eras as histórias que tantas vezes contei e tantas outras que nem sei se vou alguma vez contar!
Eles levaram-te para a terra. Eu levei-te de novo aos meus 5 anos, quando nada disto era difícil, estranho ou apressado.
Levei-te lá pela mão. E hei-de ir visitar-te tantas vezes quantas as que for capaz.
Até breve.

Dezembro 23, 2009

Natal.

Posted in Uncategorized às 11:57 am por anna21

Quando eu era pequena sentávamo-nos à lareira e esperávamos. Eu deixava o prato das bolachas e o copo de leite debaixo de um paninho bordado, abraçava o meu urso e ficava à espera. Compunha e recompunha a minha meia, pendurada num prego e esperava. E tu sorrias perante a minha agitação. Até que as horas e a ansiedade me venciam e eu caía num sono profundo e dourado, claro e quente como o meu pijama e o teu abraço. E então tu ias deitar-me na minha cama, aconchegada nos sonhos e na certeza de que a manhã chegaria rápido. E chegava. Eu abria os olhos, com a primeira luz do amanhecer e corria à lareira a procurar as dádivas do meu Natal. E encontrava as bolachas feitas por mim e pela avó todas comidas e o leite bebido, e sentia dentro de mim uma alegria imensa, uma recompensa quase divina. Depois ia buscar o urso e sentava-o comigo a abrir os presentes. À medida que ia desembrulhando cada prenda ia enrolando as fitas coloridas numa grande bola, e comendo os pequenos chocolates que estavam pendurados nos ramos do pinheiro. Não são poucas as fotografias de mim enterrada num monte de celofane e papel colorido com um sorriso rasgado de orelha a orelha todo enchocolatado. Depois de ver todos os meus presentes é que escrevia a carta. Primeiro pedia-te para escreveres tu, depois quando fui para a escola escrevia-a eu. A carta de agradecimento ao Pai natal pelos presentes que ele me tinha trazido, onde também perguntava se ele tinha gostado da receita de bolachas desse ano. Cada ano havia uma receita nova, pelo que a avó se desgraçava para me satisfazer este capricho. Nunca escrevia cartas antes a pedir. Escrevia sempre depois a agradecer. Nunca tive muitos presentes. Tive sim bons presentes, daqueles que não se esquecem e que não se tem vontade de estragar. Lembro-me dos meus puzzles, dos meus legos, das minhas bonecas, das cassetes de vídeo, dos jogos e dos meus primeiros livros. Depois da aventura das prendas pegava no urso e ía lavar a cara na tua, a dar-te beijinhos! E riamo-nos as duas. Era Natal. Apenas isso. Natal chuvoso e frio. Natal quente da lareira e perfumado dos doces sons e tons. Era Natal comigo numa saia rodada, uma blusa rendada e uma camisola de lã feita pela avó. Era eu feliz, plena, inteira. Era eu sem exigências maiores, querendo apenas sentir o Natal. O Natal calmo, sentido, vivido, grato! O verdadeiro Natal. Simples. Depois tudo passava. Desfazia-se o pinheiro, apagavam-se as luzes, guardavam-se os brinquedos. E eu esperava. Novamente. Ansiosamente. Durante mais um ano, para voltar a deixar um prato de bolachas e um copo de leite ao pé da minha meia na lareira.

Julho 1, 2009

Os Tamancos de madeira.

Posted in Uncategorized às 1:47 pm por anna21

velho

Tenho saudades de ser pequena. Saudades de regressar a casa depois da escola e encontrar tudo perfeito, em harmonia. Cada coisa no seu lugar, cada história na minha cabeça, cada sonho no meu coração onde tudo pertence e de onde tudo se liberta. Saudades de caber escondida em todos os lados, incluindo em colos maiores do que eu e nas conversas alegres daqueles que me amaram e partiram, ora roubados pela morte, ora afastados pelo ritmo insistente do mundo.

Saudades de ter cada dia nas mãos, pela imprevisibilidade que nele havia. Não se esperando muito, não se pode desejar ter mais. E assim, ao contrário do que  muita gente pensa, somos um pouco mais felizes. Eu era.

Era feliz com as minhas mãos pequenas cheias de migalhas das bolachas de manteiga acabadas de fazer, ou com o cabelo despenteado cheio de ervas e folhas depois de um dia na horta. Era feliz com uma saia às pintas e uma camisola às riscas. Era feliz com dois pares de sapatos, o par da semana e o do domingo. Era feliz com o meu bibe aos quadrados e os bolsos cheios de tralha que ia apanhando e que aos olhos dos outros não tinha utilidade nenhuma, mas para mim era um tesouro.

Houve tempos em que me envergonhava de muitas coisas, hoje envergonho-me do tempo em que tinha vergonha e tento a todo o custo reter tudo o que chega a mim do passado e me trás a lembrança leve e sorridente do que de facto significa viver plenamente.

Tenho saudades das estradas de terra, do cheiro a erva molhada, saudades de ver a avó a fazer marmelada, e de ti avô, a entrelaçar pacientemente vimes para fazer cestas. Ou será que entrelaçavas também os teus pensamentos e histórias?

Tenho saudades das termas, dos meus vestidos pequeninos cheios de flores e riscas, saudades das fotografias tiradas nas escadas da igreja quando o sol me batia na cara e me iluminava tão completamente.  Como eu estava serena, expectante diante da vida, com as mãos vazias de tudo e tão cheia de fé nas pessoas e em mim mesma.

E depois de todos estes anos dizem-me que falhei. Como posso ter falhado se ainda estou aqui e ainda sinto assim?

Eu entrelacei todos os meus anos, tudo o que aprendi, perdi e ganhei, como tu entrelaçavas os vimes avô, e entretanto, algures devo também ter entrelaçado o coração e as palavras porque sinto que já não tenho os dois. Falta-me a tua poesia, tão natural, qual Alberto Caeiro, cheia de sons e cheiros, como quando colhias os figos para comermos ou me levavas a ver os nossos borrachinhos que tinham nascido na primavera.

Lembro-me de ter 50 escudos na mão e julgar-me a criança mais rica do mundo, porque podia comprar um saco de rebuçados catraios e repartir com todos os outros meninos da escola.

Lembro-me dos meus chapéus de palha, dos teus tamancos que te obrigaram a largar depois… porque era uma vergonha alguém como tu usar ainda esse tipo de calçado.

Depois por causa disso, começaste a chamar-me às 6 da manhã todos os domingos para eu te calçar para ires à missa. Tinhas medo que eu fosse embora antes de ti, e depois já não tinhas ninguém para te calçar os sapatos avô. Tinhas medo que eu partisse antes de ti? Mas foste tu que foste embora antes de mim.

Tiveram de te levar para longe, onde só te posso ir ver ao fim-de-semana, de vez em quando.

Eu sei que não foste tu que quiseste ir, foi essa maldita doença que te levou. Às vezes regressas, nas grandes ocasiões levadas a cabo pela família. Mas vejo o teu olhar perdido, distante. Já não conheces ninguém. Ainda bem avô, poupa-te o sofrimento de veres como as pessoas mudaram e se tornaram cruéis com os outros e com elas mesmas.

Tenho ainda a guitarra que me deste e que era do meu padrinho, mas que agora só tem uma corda. Há coisas que se vão perdendo pelo caminho.

Eu já perdi 4 cordas. Tu tens perdido tantos anos. Mas não sabes. E eu estou aqui, para guardar todas as coisas que já perdeste, mas que me deste, talvez sabendo o que o futuro tinha preparado, ou apenas como mostra do teu amor por mim. Seja qual for o motivo eu guardo tudo avô.

Guardo as rabujes, guardo a paciência, guardo o tempo, a saudade, a partilha, a tua mão grande a envolver a minha. Guardo até a tua maldade, quando a soubeste usar para me fazer ver que eu não queria ser assim.

O que me trouxe para tão perto de mim mesma nestes últimos anos? Não sei, mas dou por mim muitas vezes a mexer nas caixas onde guardo as recordações, esperando encontrar a resposta e na maioria das vezes, não sei bem porquê, acabo por te encontrar a ti.

Tenho o teu relógio de bolso, guardei-o e gostava muito de ficar com ele. Está parado, tal como tu estás avô, mas eu guardo-o à mesma. Tal como te guardo a ti.

Tu foste também um relógio para mim. Mostraste me o significado do tempo, da espera, da paciência, da ausência e principalmente que todos os momentos são únicos e irrepetíveis e por isso devemos viver cada um deles como se não voltasse a haver mais nada depois.

Aos poucos eu fui também tornando me um relógio.

Movida de paciência e queria eu de paz, muita paz.

Tu deste-me corda e agora posso rodar por mim mesma, sem medo. Sem parar, nem recuar.

Tu paraste, mas por ti e por mim eu ainda giro, ainda bato, tal como bate o meu coração. E sei que para lá das fronteiras da tua doença e do meu medo, está a infância querida que hei-de sempre guardar. E onde tu habitas comigo e podes usar os teus tamancos de madeira, porque eu não acho que sejam desajustados e onde eu não tenho vergonha de ser apenas eu, tal como tu e os teus tamancos.

Onde tudo é apenas mais certo.

stockvault_4496_20070301

Abril 21, 2009

Mariana e Baltasar- Uma História de amor.

Posted in Uncategorized às 7:12 pm por anna21

Uma história de amor.

Esta é uma história de amor. Uma daquelas bem verdadeiras que nos mostra de facto como o amor deve ser.
É a história de amor entre uma menina e um pardal.
Certo dia, bem pelos inícios da Primavera, andava a Mariana no jardim a plantar sementes de girassol e feijões com a avó Rosalinda, quando encontraram um pardal pequenino caído no meio das árvores.
– O vento de ontem à noite deve ter abanado o ramo onde está o ninho e o pobre animal caiu – disse a avó.
– Olha avó, ele está magoado, tem aqui sangue da patita – observou a Mariana.
– Ora pois é verdade, e ainda parece ser bem novo, não deve ser capaz de se aguentar se o voltarmos a colocar no ninho.
– Podemos ficar com ele avó? Podemos?! Anda lá… avó?
– Bem… eu não sei se a tua mãe vai achar muita piada a ter um pássaro dentro de casa, mas por mim não há nenhum problema. Vamos aos currais buscar palha e fazemos-lhe um ninho numa daquelas latas de biscoitos que o teu avô tem lá na garagem.
Mariana não cabia em si de contente. Nunca tivera nenhum animal e agora já tinha um pequenino de quem cuidar.
Foram guardar o resto das sementes no armário da garagem, e procurar uma daquelas tais latas de biscoitos.
A avó entretanto passou nos currais e trouxe uma mão cheia de palha para fazer o ninho ao pequeno pardal que não se mexera desde que se vira em mãos alheias, maior era o susto que a dor na pata ferida.
Depois de se ter feito o ninho e de se ter colocado o animal lá dentro a avó acendeu o lume e colocou-o perto do calor.
A Mariana tratou logo de ir buscar um penso à gaveta da casa de banho, mas a avó já tinha tratado do assunto enrolando uma faixa de tecido com um nó à volta da magra patita do pardal.
– Agora o que lhe damos de comer avó? Eu não sei o que comem os passarinhos…
– Damos-lhe milho partido e migalhas, pode ser que ele coma – disse a avó meia convencida de que o animal não deveria passar daquela noite.
A Mariana apressou-se a arranjar migalhas e colocá-las ao pé do pardalito. Mas ele não se mexeu nos 2 minutos a seguir, nem nos 5, nem nos 10, nem nas duas horas seguintes.
– Avó… será que ele tá a morrer? – Perguntou a Mariana já com as lágrimas nos cantos dos olhos, pronta para desabar num pranto.
É que sabem…a morte de um bichinho é sempre triste, principalmente quando é o nosso primeiro bichinho.
– Não sei meu amor, mas é provável que sim. Não fiques triste, mais vale assim do que ele estar a sofrer.
Mariana ficou junto do Baltasar, assim se chamava o pardal desde a hora da sua descoberta, até que o sono já era tão pesado nos seus olhos que os não conseguia manter abertos.
O pai pegou-lhe ao colo e foi deitá-la.
– Pai, podes ir buscar o Baltasar para perto de mim? Tenho medo que ele se sinta sozinho.
Ora o pai que também gostava muito de bichinhos e mais ainda da sua pequena menina, fez-lhe a vontade e lá veio o pobre do Baltasar dormir também ele no quarto da Mariana. E olhem que era um quarto bem bonito, cheio de histórias e fotografias bonitas.
A meio da noite a Mariana acordou assustada… tinha sentido algo a mexer na cara dela. Ligou o candeeiro e qual não foi a sua surpresa ao ver ali ao seu lado na cama a olhar para ela o pequeno Baltasar.
Mas como seria que ele teria voado para a cama se ele nem sabia voar ainda?
Ora o mistério é que o animal não tinha voado, mas tinha saltitado ao longo do edredão que tocava o chão e tinha subido.
A Mariana ficou deveras feliz. Aconchegou bem o Baltasar debaixo do lençol mexendo-lhe devagarinho na cabeça até ele adormecer. E não é que ele fechou os olhos pequeninos e dormiu mesmo?
A sorrir a Mariana desligou a luz e voltou a dormir, voando ela agora para o mundo dos sonhos onde agora tinha um novo amigo, o Baltasar.
Assim se foram passando os dias, entre a agitação da escola e a correria para casa onde o Baltasar sempre a esperava empoleirado no parapeito da janela da cozinha. Sim porque além de ser o novo amigo da Mariana, o Baltasar também se tinha tornado um grande companheiro da avó Rosalinda. Se ela ia para o quintal punha-o no bolso e lá ia ele com ela. Se se sentava a ver televisão o Baltasar ficava quieto a ver também ao colo dela. E assim se passavam os dias entre afazeres de gente e de pardal.
E todos os dias o Baltasar saltitava para o parapeito da janela à espera que a Mariana chegasse. A ferida na pata já estava curada e a avó já lhe tinha à muito tirado a tira de pano.
Passaram-se as semanas e a Mariana andava cheia de alegria, gostava tanto do Baltasar.
Um dia depois da escola a mãe chamou-a, sentou-a ao colo e disse-lhe com jeito:
– Sabes Mariana, quando tu encontraste o Baltasar ele era só um pardalinho pequenino que mal sabia andar, mas agora cresceu e já está a querer começar voar; ainda hoje o teu avô teve de o ir tirar de cima do armário da sala, ele já voa até lá.
– Eu sei mãe, a avó contou-me.
-Pois meu bem, mas isto significa que em breve vais ter de o libertar, um pardal não é um pássaro de estar preso dentro de casa, ele precisa de sair e voar lá fora.
– Mas mãe, ele é meu amigo…
– Eu sei meu anjo, mas pensa nisto sim?
Mariana acenou que sim, mas estava triste, não queria sequer pensar em deixar ir o Baltasar. Ele era dela.
Mais alguns dias passaram entre tropelias de gente e pardal, mas a cada dia a Mariana notava mais uma certa tristeza no olhar do Baltasar.
Às vezes dava com ele a olhar para o céu…
– Será que ele quer mesmo ir embora? – perguntava a Mariana a si mesma.
E ficava triste. Ela não ia deixar o Baltasar partir. Não, não e não!
Mas tal como aumentava a tristeza da Mariana, aumentava a do Baltasar.
Ele sentia-se estranho, sentia vontade de sair e voar até ao céu, mas as janelas estavam sempre fechadas e ele não conseguia. Depois havia também a menina. O pardal gostava dela e custava-lhe muito vê-la chorar nos últimos dias.
Um dia ao chegar a casa o Baltasar não estava no parapeito. A Mariana achou aquilo muito estranho e foi logo ver o que se passava. A avó contou-lhe que ele se arremessara com tanta força contra a janela que magoara uma asa.
– Mariana – disse a avó – está na altura de soltares o Baltasar! Ele precisa de liberdade…
A mariana começou a chorar. Ela queria muito ficar com o seu amigo, mas sabia que tinha de o soltar senão ele podia ficar ainda mais magoado.
Sabem… às vezes quando nós gostamos muito de alguém essa pessoa tem de partir. Nós não entendemos sempre porque tem de ser assim, mas sabemos que se ela não partir ficará muito triste e o coração dela começará a morrer.
Era isto que se passava com o Baltasar. O coração dele tinha começado a morrer de saudade de casa, do céu.
A Mariana decidiu então soltá-lo mal a asa ficasse boa. A partir daquele dia passava todo o tempo que podia com o Baltasar, para guardar muito dele no coração, do amor que sentia pelo seu amigo, para quando ele partisse e ela ficasse um pouco só.
Chegou o dia.
Estava sol e corria um ventinho fresco no quintal. A avó levou a Mariana até ao pé da árvore onde tinham encontrado o Baltasar.
A Mariana encostou a sua cabecinha à cabecita pequenina do Baltasar e disse-lhe:
– Gosto muito de ti!
O pequeno pássaro esfregou o peito na mão dela e ela quase que lhe sentiu o coração a bater, lá dentro ‘pum pum… pum pum’.
Era um adeus, um adeus que dizia ‘ aqui tens o meu coração Mariana, também gosto muito de ti ‘.
De seguida a Mariana abriu as mãos e lançou o Baltasar ao ar. E ele voou… voou alto, tão alto como voam os pardais que entregam o seu coração a meninas boas como a Mariana.
E ela chorou…
Mas lá dentro era como se sentisse o coração do seu amigo a bater ao pé de dela e sabia que de alguma forma, não estava assim tão só.
Além disso, o Baltazar voara para o céu, onde vive Deus e as pessoas boas que já andaram cá na terra. Podia ser que um dia a Mariana também voasse para o céu e lá algures no peitoril de uma janela encontrasse de novo o seu amigo Baltasar.

Março 8, 2009

a vida.

Posted in Uncategorized às 10:48 pm por anna21

-avô o que é a vida?
– a vida?
-sim avô, o que é a vida?
-que pergunta estranha, minha perguntadeira traquina… ora deixa cá o teu velho avô pensar. Essa é uma pergunta difícil.
(passado uns momentos)
-então avô, o que é a vida?
-bem… depende.
-depende?
-sim depende.
-depende de quê?
– da vida de que tu estás a perguntar.
-oh! Então existe mais que uma vida?
-claro! Não sabias?
-não.
-pois não. Às vezes eu esqueço-me de que és pequena e ainda não sabes algumas coisas.
-pois é, é uma chatice ser-se criança!
-não, não é. É a melhor coisa do mundo. Quando se é criança tudo é bem melhor. E se não sabes todas as coisas é porque ainda as estás a aprender.
– mas eu gostava de já ser grande…como a mãe e o pai, ou como tu…
– minha pequenina… senta-te aqui ao meu colo…
(a pequena senta-se no regaço do avô e ele acaricia-lhe o cabelo com ternura)
-eu gosto dos teus meiguinhos avô.. .e do teu colo.
– Vês? é bom ser-se criança. Se tu fosses grande eu não podia pegar-te ao colo nem fazer-te meiguices.
-pois era.
-e sabes outra coisa ainda?
-o quê?
– é que se tu não fosses criança, não conseguirias entender o que é a vida.
– a sério? Mas eu não entendo… por isso te perguntei…
-a sério. Sabes… há quem julgue que só quando se chega a velhinho se entende e se sabe o que é a vida. Mas eu acho que não, e olha que eu já sou bastante velhinho…
– oh! Não és nada. ( risos)
– sou sim. E já vivi muitas coisas… e sabes o que eu sei? Que são as crianças quem melhor sabe o que é a vida, porque a vivem sem saber que a estão a viver.
– ai! Não estou a entender… explica-me devagarinho isso avô.
– é fácil de entender, escuta. Quando se é criança, não se pára para se pensar nas coisas. Não é que o pensamento seja mau, não é. Mas às vezes é bom viver-se sem se estar sempre a pensar. O pensamento pode criar muitas amarras e laços à nossa volta e impedir-nos de ver e sentir a vida.
-a vida vê-se e sente-se?
– Sim. Ás vezes enquanto brincas no jardim eu vejo-te a ver e a sentir a vida.
-vês?
-vejo. Quando sorris ao vento, ou quando cantas baixinho aquelas músicas que a avó te ensinou. Quando apanhas flores para pores no teu pote de barro, ou quando escreves palavras na terra com um pau. Quando vais ao quintal procurar bichos estranhos para desenhares no teu caderno, quando te vejo a dormir a sesta e a mexer por causa dos sonhos ou quando chapinhas na piscina de plástico no verão e soltas os teus gritos de alegria. Quando descobres algo novo e me dizes ‘avô, olha!’… meu anjo, nessas alturas tu vês e sentes a vida.
A vida não é ser-se grande e saber coisas. Não é ter dinheiro, uma casa e um emprego. Não é sequer ir à escola. Embora tudo isso seja importante, isso não é a vida. Até porque há pessoas que não têm essas coisas e vivem.
Viver e saber ver com os olhos da alma, sentir com gratidão e guardar no coração momentos. E eu tenho cá para mim que vocês crianças são peritas a fazer isso.
– não sei avô, eu não sei como faço isso. Eu só faço.
-exactamente meu bem. É por não saberes que vives, que vives. Nada te prende ou amarra e dentro do teu coração ainda és livre e pura.
– e as outras pessoas também são assim? Também vivem assim?
– não.
-não?
-não. Cada pessoa vive à sua maneira. Existem tantas formas de viver como as pessoas do mundo. Uma coisa é certa. Ao contrário do que se pensa, com o passar dos anos desaprendemos de viver, porque começamos a estar presos a tudo, limitados e preocupados. Quando damos por nós já não soltamos gargalhadas, nem sorrimos ao vento. Já nem colhemos flores.
E nesse momento descobrimos algo muito triste.
– o quê avô?
– descobrimos que não vivemos, mas sobrevivemos. E gostaríamos de voltar atrás no tempo e remendar isso.
-mas isso não pode acontecer.
-pois não meu bem.
– então como se faz para não acontecer algo tão triste?
– guardamos a infância bem dentro de nós e não nos envergonhamos de crescer com ela. Guardamos todas as coisas que são importantes e damos-lhe sentido e lugar na vida e no coração.
– e se nos esquecermos?
– se te esqueceres? Bem…. Nesse caso, às vezes acontecem pequenos milagres.
-milagres?
-sim. Muito pequeninos às vezes, mas muito valiosos. Às vezes esquecemo-nos de guardar a infância e depois já não sabemos como viver, e então acontece um milagre, a própria vida resgata-nos. Envia-nos um vento, uma gargalhada de alguém, uma palavra ou uma música que nos faz recordar de como é a infância, de como é viver de facto.
– avô?
-sim querida…
– obrigada.
-pelo quê?
– por tudo.
(risos)
– de nada.
– avô?
-hum?!
– e obrigada por me ajudares a entender. Vou guardar bem a minha infância. E sabes que mais vou guardar?
– ora diz-me lá…
– vou guardar estes momentos, e vou guardar-te a ti.
2902026121_09949c9d74_b

Fevereiro 2, 2009

Posted in Uncategorized às 9:24 pm por anna21

Pouco antes do Natal, estava eu numa livraria quando um livro que captou a atenção.

‘Cartas para Sam’ de Daniel Gottlieb, era o título do livro. Li pequenas partes e gostei tanto que anotei o nome num pequeno bloco que trago sempre comigo e onde anoto pequenas coisas.

Eu não comprei o livro. Nem o pedi a ninguém. Mas sabem o que aconteceu? Recebi dois exemplares no Natal, e isso deixou-me feliz. Às vezes acontecem pequenas coisas que nos tocam. Esta foi uma delas. A vida às vezes é boa para cada um de nós.

Estou a falar deste livro, porque me diz muito. São cartas que um avô (Daniel) que ficou tetraplégico num acidente de viação há mais de 25 anos escreve a um neto (Sam) que nasceu com autismo.

Este avô sabe que o seu neto vai passar por momentos mais difíceis por ser diferente e esta foi a melhor forma que encontrou de o ajudar.

A minha infância foi muito marcada pela presença do meu avô. Ainda hoje não sei descrever bem o modo como ele marcou a minha vida. A personalidade de cada pessoa constrói-se fundamentalmente a partir da socialização, contudo há certos aspectos intrínsecos, que julgo eu, nascem connosco, e que mesmo em adultos não sabemos explicar. O que sou é em parte herança do meu avô. Pelo seu exemplo na minha vida, pelo que despertou em mim e pelas coisas que ainda vou encontrando em mim e que eu não sei de onde vêm, mas que me levam sempre a ele.

Um dia, devia eu ter os meus 8 anos, num dia de sol, no meio de uma conversa o meu avô disse-me algo do género – ‘ sabes, olhando para ti, pressinto que vai haver muitos momentos em que te vais sentir demasiado presa à estrada da vida, e isso vai causar-te dor. As estradas não te levam todas ao mesmo sítio. E não são as pessoas que te dizem para onde tens de ir. É a alma dentro de ti que te irá levar pela vontade, e a maior viagem serás sempre tu própria’. Tenho isto escrito num pequeno diário, e muitas vezes releio-o.

Passaram-se 14 anos, e se durante muito tempo não pensei nisto, agora sinto que é verdade.

Por isso escolhi um excerto do livro que fala sobre uma viagem.

Se puderem leiam o livro. Não vos vai dar respostas, nem vai fazer de vocês pessoas melhores, mas vai com certeza fazer-vos pensar, e em alguns momentos, quem sabe, fazer-vos sentir verdadeiramente gratos.

“A VIAGEM INTERIOR

Querido Sam,

A Bíblia conta que Deus disse a Abraão para deixar a casa do pai – abandonar a terra que conhecia e “seguir em frente”. E, à medida que avançasse, devia ter fé que cuidariam dele.

Ao “ seguir em frente”, penso que Abraão estava, na verdade, em busca da parte que faltava à sua alma. E um rabi meu amigo disse-me que a tradução literal das palavras da Bíblia Lech le’cha é ‘ ir para dentro’. Pelo que a viagem dele não era apenas exterior. Era também uma viagem para dentro dele próprio.

Sam, um dia, tu seguirás em frente na tua viagem. E, quando o fizeres, irás enfrentar grandes medos e grandes esperanças. A viagem ao nosso interior pode ser a viagem mais corajosa de todas.

A minha própria viagem era suposto ter começado quando fiz 18 anos. Foi nessa altura que sai de casa, pela primeira vez, para ir para a universidade. Tinha passado o tempo todo do liceu a lutar com uma dificuldade de aprendizagem. Agora estava sozinho, essa dificuldade transformou-se num obstáculo. Além disso, estava assustado e deprimido. Para tornar as coisas ainda piores, o meu companheiro de quarto era anti-semita e eu tinha medo dele. Isto fez-me sentir ainda mais só.

Com todos estes entraves, chumbei à maior parte das disciplinas. Não fui autorizado a inscrever-me no segundo semestre. Isto foi a meio da guerra do Vietname, uma guerra que me assustava e na qual eu não acreditava – e sabia que, se pudesse ficar na universidade, era provável que fosse recrutado. Se não tivesse notas para me manter na universidade, ia acabar no Vietname, no meio daquela guerra.

Fiz o que sempre fizera, quando me sentia assustado e sozinho. Telefonei a minha mãe.

Pela primeira vez, ela disse-me:

– Daqui não te posso ajudar. Vais ter de o fazer sozinho.

É este o momento que identifico como o prefácio da minha viagem.

Insisti em me reunir com o reitor da universidade e, depois de muita insistência, consegui ser recebido. Contei-lhe a minha história e pedi-lhe outra oportunidade. Ele concordou em me deixar ficar mais um semestre. Houve algo nesse momento que me modificou.

No entanto, acabou por se verificar que as expectativas da universidade me ultrapassavam. Tentei novamente no ano seguinte, na única universidade da região com ensino nocturno que, por, acaso, era uma universidade católica. Este acabou por ser um dos anos mais importantes da minha vida. Eu vivia sozinho. Não fiz amigos, mas desenvolvi algumas capacidades académicas, surpreendi-me a mim mesmo com a minha persistência e descobri que conseguia suportar a solidão. A minha verdadeira viagem começou ali – na solidão.

É claro que não se iniciou assim porque eu escolhi.

E quando chegar o momento de tu iniciares a tua viagem, espero que estejas numa posição diferente. Espero que possas iniciar a tua viagem quando estiveres pronto e que, durante o percurso, tenhas algum tipo de rede que te ampare as quedas. Mas também espero que percebas que a solidão nos permite conhecermo-nos melhor.

Coloquei no meu gabinete, num lugar bem visível, um poema de um autor anónimo. Intitula-se “ Aproximem-Se Do Precipício!”

“APROXIMEM-SE DO PRECIPÍCIO!

Não, não podemos… temos medo.

APROXIMEM-SE DO PRECIPÍCIO!

Não, não podemos… vamos cair.

APROXIMEM-SE DO PRECIPÍCIO!

E eles vieram, ele empurrou-os e eles voaram!”

Agora, ao relê-lo, recordo outro momento da minha vida em que me vi em território desbravado. Logo a seguir ao meu acidente, todos me pareciam diferentes – até os meus pais. Até ali, sempre senti que eles estavam à minha frente no caminho da vida e que, fosse eu por onde fosse, eles já lá tinham passado. Mas, naquele momento, eu estava a iniciar uma experiencia que eles nunca tinham tido e que mal conseguiriam imaginar. E, no instante em que eles olharam para mim, eu soube que estava neste percurso sozinho. Fosse qual fosse o caminho que escolhesse, dali em diante, seria por um lugar onde nenhum deles estivera antes. Era extremamente triste, assustador e, ao mesmo tempo, libertador.

***

Sam, se nós estamos destinados a tornar-nos as pessoas que deveríamos ser, temos de fazer esta viagem. Tal como Abraão, quando partimos, temos de ter fé que ficaremos bem ao chegar ao outro lado.

Quando chegares ao final da adolescência, vais sair da casa dos teus pais – se não for no sentido literal, sê-lo-á, pelo menos metaforicamente. Vais ter de seguir em frente – e para o interior – para criares a tua própria vida.

Leva contigo a sabedoria que adquiriste com os teus pais, avós e professores. Mas, lembra-te, a sabedoria deles não é, necessariamente a tua verdade. Tal como Abraão, tens de seguir em frente e estar sempre atento à voz silenciosa do teu coração.

Com amor,

Vô”

Novembro 13, 2008

Criança…

Posted in Uncategorized às 10:18 am por anna21

the_face_of_an_angel1 

{Para o Rafael que gosta de histórias e que é curioso tal como eu…}

 

E o menino perguntou:

-Mãe, porque é que não podemos ver os anjos? E porque é que eles têm asas e nós não?

 

~

De cada vez que nasce uma criança, um menino ou uma menina, com ela nascem outras duas coisas: uma estrela e um anjo.

Há quem pense que todos os anjos estão no céu, junto de Deus, mas enganam-se! Esses são outros anjos… aqueles que já foram pessoas boas e partiram.

Mas os outros anjos, aqueles que surgem quando nasce um menino ou uma menina, não estão no céu!

Eles preferem viver dentro do coração…

Primeiro são anjos pequeninos, depois vão crescendo devagarinho, á medida que o coração do menino ou da menina também cresce.

Cresce e vai vivendo dentro de nós… cada criança tem o seu anjo.

É ele que nos ajuda a crescer… é ele que nos ajuda a dizer a primeira palavra e a dar o primeiro passo.

Às vezes ele está feliz e ri-se e então nós rimo-nos também.

Às vezes ele está triste e chora e é quando sentimos também vontade de chorar.

O nosso anjo faz-nos inventar histórias e brincadeiras.

Pinta os sonhos dentro de nós e ajuda-nos a ter esperança.

Faz-nos gostar dos outros e fazer boas coisas.

Mas nós nunca o vemos… só o podemos sentir…

À medida que vamos ficando velhinhos o nosso coração vai ficando apertado.

Porque o nosso anjo também está a crescer, e nós sentimo-lo.

É por isso que não podemos ver os nossos anjos, porque eles vivem cá dentro, quietinhos, para cuidar de nós.

E quando já vivemos tudo e chega a nossa hora de partir para o céu, fechamos os olhos e o nosso coração transforma-se num lindo e brilhante par de asas, para o nosso coração poder voar até às nuvens e juntar-se aos milhares de anjos que já vivem no céu, perto de Deus e que observam atentos todos os meninos e meninas que estão nesse momento a nascer, aqui na terra, e todos os pequeninos anjos que estão dentro do coração deles a surgir também….

 

 

 

Outubro 7, 2008

Velha e (e)terna Infância.

Posted in Uncategorized às 5:02 pm por anna21

 

Vinhas buscar-me à escola e na mão trazias uma saca azul de plástico, dessas que há nos supermercados. Lá dentro havia sempre dois pães com marmelada e queijo, um sumo de lata e um termo com cevada para ti. O sumo era para mim. Sentavas-te no muro da escola com a cabeça bem levantada e ficavas à espera de me ver sair. Eu era pequenina. Ainda hoje sou, e às vezes tinhas de te esticar bem para me ver no meio da confusão dos outros garotos. E de repente lá aparecia eu, com minha mochila maior que eu e a lancheira das Tartaruga-Ninja que a avó me tinha dado no Natal. Rias-te para mim. De certeza que era dos meus joelhos esmurrados. Eu andava sempre no chão. Tu costumavas dizer-me avô, que eu tinha o corpo pregado ao chão e a alma esticada ao céu. Tiravas o meu pão da saca de plástico azul, e eu comia-o enquanto íamos caminhando. O teu comias mais tarde, na pausa entre uma rega e outra ou uma plantação e outra. Enquanto comia e bebia o meu sumo (sempre de ananás) ia-te contando o meu dia. Tínhamos estado a aprender as moedas e as notas e eu tinha baralhado tudo. Já naquela altura o dinheiro me metia confusão. Nesta minha curta existência já me tinham sido revelados os três problemas da minha vida: as esmurradelas, o dinheiro e a matemática. Há umas semanas atrás tinha tido um ataque de pânico porque não sabia trabalhar com régua e esquadro. Mas tu na tua infinita paciência tinhas passado uns serões comigo a insistir e agora eu já me safava melhor. Disseste-me que hoje irias plantar umas macieiras e uns carvalhos e perguntaste-me se eu gostava de te ajudar a pôr as árvores nos buracos. Claro que queria. Eu sempre tinha querido ter uma árvore e agora, ainda que não o soubesses, estavas a realizar-me esse sonho. Fomos caminhando até à terra. Estavam mulheres a lavar no lavadouro e havia cordeirinhos novos nos campos de baixo. Eu gostava de ir aquele sítio. A urze crescia por todo o lugar e havia sempre daquelas flores pequeninas amarelas e brancas que parecem malmequeres. Hoje já quase não vejo dessas flores. Passamos na casa do poço para ir buscar as enxadas e as árvores que tinhas comprado na feira essa manhã. Disseste-me para ficar sentada no poço enquanto abrias os buracos. Lembro-me… cuspis-te nas mãos e esfregaste-as para o pó se agarrar e o cabo da enxada não te magoar, e cavaste. Eu deitei-me no chão e fiquei a olhar o céu. Era fim de tarde e por isso as cores estavam a mudar. Naquele dia foi a primeira vez que vi céu ficar primeiro cor-de-rosa e depois roxo. No horizonte onde o sol batia as nuvens formavam um espectáculo único. Lembro-me que fiquei tão extasiada que nem te ouvi chamar-me para eu te ir ajudar a plantar as árvores nos buracos. Por isso aproximaste-te de mim e tentaste entender o que me estava a absorver os pensamentos.

– ‘Olha só aquilo avô! Nunca tinha visto o céu ficar cor-de-rosa!’

Tu riste-te na minha ingenuidade e disseste:

-‘ Ainda hás-de ver o céu de muitas cores. E não só o céu. Tudo o que está à nossa volta apenas reflecte o que já está na nossa alma. Se tu imaginares que o céu é verde, ele será verde, se quiseres que seja azul, azul será… tudo é possível. Mas tens razão, está um poente bonito. Vamos mas é lá pôr essas árvores no sítio que começa a ficar tarde.’

Tiraste o teu pão da saca e comeste-o com duas dentadas, seguidas de uma caneca de café muito açucarado. Eu ajudei-te a arrastar as árvores até aos buracos, três macieiras e dois carvalhos.

– ‘ Escolhe a tua árvore’ disseste tu de repente.

Eu olhei para ti com admiração.

-‘ Como e que sabes que quero ter uma árvore?’- perguntei-te eu.

-‘Ora, disse-me há pouco uma cotovia’.

Escolhi um carvalho. Plantei-o, cobri as raízes de terra e esperei. 15 Anos.

Ainda lá está. Grande, largo, frondoso. Ainda lá está tudo… a casa do poço, a terra, o lavadouro, até os cordeiros, só as flores pequeninas brancas e amarelas é que não. E não estás tu. Vou-te ver aquela casa distante duas vezes por mês, e nem sequer te lembras quem sou. Muito menos te lembraras do meu carvalho ou de como me ensinaste a trabalhar com régua e esquadro. O Alzheimer apagou-te as ideias, as memórias, as vontades. Será que também levou os sentimentos? Às vezes quando te vou visitar levo-te pão com queijo e marmelada. Só não levo café porque não podes beber.

Tu sentas-te comigo lá fora ao sol e perguntas-me sempre – ‘ quando vou para casa?’. E eu digo-te sempre – ‘ vais amanhã’ e tu sorris e dizes -’ está bem’.

Mas o amanhã nunca vai chegar avô e essa é que é a tua nova casa.

Mas eu vou cuidando de tudo por cá. Perdeste a noção da vida mas não do mundo e ainda me continuas a dizer às vezes –‘ olha só o céu!’ ou – ‘ já viste as rosas novas na roseira?’

Perdeste a memória, mas eu lembro-me de tudo por ti. Trago essas cores que me ensinaste cá dentro. E é assim que tem de ser.

Agora és tu que tens o corpo preso ao chão, ao pó, ao cansaço e à velhice que te leva embora… mas tens a alma ligada ao céu.

Rosado, arroxeado como naquele fim de tarde, em que plantámos a minha árvore.

 

 

Julho 10, 2008

O Céu*

Posted in Uncategorized às 4:35 pm por anna21

 

Era uma vez, um rio… e junto do rio havia uma vivenda… uma casa branca com telhado vermelho e um alpendre de madeira envernizada…

Na entrada para a casa havia uma grande armação de madeira que sustinha videiras e sardinheiras carmins… e no centro da armação, um grande espanta-espiritos feito de madeira de cedro e de pequenos guizos dada as boas vindas a todos os visitantes.

À volta da casa havia um enorme jardim, com roseiras, margaridas, alegrias e tulipas, plantadas em carreiros coloridos…

No Verão cresciam por ali imensas papoilas que libertavam um cheiro agradável…

Na parte de trás havia um grande pomar… com cerejeiras e pessegueiros… que se enchiam de flores na Primavera… havia macieiras, que davam maçãs sumarentas, carvalhos, morangueiros, um limoeiro e um carreiro com laranjeiras… havia ainda uma figueira e um castanheiro que tinha sido plantado há mais de 70 anos.

Mas mais velho que o velho castanheiro do pomar era o carvalho que estava na frente da casa, e que fora plantado no ano em que a casa fizera 1 ano… já lá ia mais de cem anos…

Era uma casa antiga… dava para contar pelos dedos da mão as vezes que tinha tido que sofrer obras, devido á degradação provocada pela passagem do tempo.

Era nesta casa que vivia Afonso.

Vivia com os avós maternos porque os pais estavam sempre a viajar por países pobres ou em conflito e achavam que ele deveria ficar ali, onde poderia crescer em segurança…

Os pais eram médicos sem fronteiras e Afonso tinha muito orgulho no trabalho que eles faziam, em favor dos outros.

Tinha apenas 11 anos mas já conseguia compreender muitas coisas, e sabia que no mundo havia pessoas boas e más, e que as pessoas más por vezes gostavam de arranjar confusões e guerras e que eram as pessoas boas as que mais sofriam com isso… principalmente as crianças…

Afonso estava inscrito num programa internacional por correspondência, no qual enviava e recebia cartas e fotografias de meninos de muitos países como Angola ou Etiópia, alguns deles órfãos, porque os pais tinham morrido na guerra ou devido à explosão de bombas e minas.

Desde que sabia escrever e ler que escrevia a estes meninos, e o avô, que tinha sido tradutor, muitas vezes transcrevia as cartas em outras línguas, sempre que fosse necessário.

Às vezes as cartas levavam meses a chegar, porque o país estava em conflito e era difícil entregar as cartas… mas Afonso não se importava de esperar, enquanto esperava ía fazendo outras coisas…

Com a ajuda do avô e do Manuel que era o caseiro, tinham construído uma pequena casa na árvore, onde tinha colocado um colchão que a Cândida que era a mulher do Manuel, tinha feito, e uma cadeira velha que era do avô pôr os pés quando estava a ler, uma mesa e alguns livros…

Tinha também lá um baú, que os pais lhe tinham trazido da Índia e onde guardava os seus segredos… as cartas, fotografias, os caleidoscópios e a caixa de música que tinha sido da avó Mariana que tinha morrido no ano anterior…

Lá na casa da árvore Afonso tinha colocado o seu telescópio, prenda do seu 8º aniversário.

Nas noites de Verão, ou durante o Equinócio, costumava dormir lá para observar o céu.

A avó Beatriz sempre que tinha dito que todas as pessoas boas estavam no céu, e então ele pensava em todos os meninos que tinham morrido nos países onde andavam os pais, e pedia-lhes que eles cuidassem bem deles e os trouxessem sãos e salvos no Natal.

Normalmente os pais estavam fora durante quase todo o tempo, passando apenas um mês no verão com ele e outro em Dezembro, durante o natal.

Quando sentia muitas saudades, subia a escada que levava à casa da árvore e observava o céu; a terra separava-os… até o mar… mas o céu era sempre o mesmo… o céu onde moravam as pessoas boas, as crianças, as estrelas, os anjos e Deus…

Afonso tinha aprendido que Deus é como o ar, está dentro de nós e em todo o lado, por isso Deus poderia cuidar dos seus pais.

Afonso parecia ser um menino normal, mas por dentro ele sentia-se diferente… como se Deus lhe tivesse dado mais que um coração. Ele conseguia sentir tudo, saber quando as pessoas estavam tristes ou alegres… e as vezes sabia as coisas, mesmo sem entender porquê.

Uma vez acordou assustado a meio da noite com um aperto no peito e com o nome do Boris, que era o seu cão, a bater-lhe dentro da cabeça. Foi chamar o avô e contar-lhe o que se passava…

Quando chegaram à casota o Boris estava deitado, muito frio, e a tremer…

Tinha sido mordido por uma cobra e estava a morrer… tiveram de chamar o veterinário que o levou e cuidou dele até ele recuperar…

Ou quando um pássaro caía do ninho… mas cedo ou mais tarde Afonso dava com ele e colocava-o em segurança outra vez.

A avó tinha-lhe dito que por vezes Deus agracia-nos com certos dons, e que nós devemos usá-los com sabedoria, fazendo o bem e praticando a justiça.

Afonso sabia isso.

Às vezes enquanto observava as estrelas, falava com elas e depois ficava quieto à escuta, à espera da resposta…

Mas as estrelas estavam muito longe e a voz delas não chegava aos ouvidos dele.

Um dia chegou um telegrama a casa. Vinha da parte dos pais, e trazia notícias tristes.

A mãe de Afonso tinha sido atingida por uma bala durante um ataque no Iraque, e estava muito mal.

A zona em que se encontravam estava isolada e não havia recursos para a conseguir transportar ou tratar.

Afonso não parava de chorar… a coisa que ele mais queria era ver a mãe… não conseguia suportar a ideia de que ela fosse morrer.

O pai deveria poder cuidar dela, ele era médico… mas não havia remédios lá onde eles estavam.

Os dias foram passando e não chegavam mais noticias… ninguém sabia o que poderia estar a acontecer, nem o que teria já acontecido, e nos noticiários não diziam nada.

Afonso passava agora os dias e as noites na árvore. Lá sentia-se mais seguro, mais perto do céu, mais perto de Deus…

Gostava de olhar para os caleidoscópios, que tinha sido presente da mãe, porque assim sentia-a mais perto de si… ficava horas e horas a ver as formas mudarem, dentro daqueles tubinhos, consoante os movimentos e a luz…

Às vezes também colocava a caixa de música a tocar… dava-lhe alguma paz…

Tinha colado fotografias da mãe e do pai no tecto e olhava para elas à noite quando adormecia, pensando se ela estaria bem…

Deitado a olhar para o céu estrelado pedia a deus que a trouxesse para ele.

Os dias foram passando e continuavam sem noticias… Afonso já não comia nada, e nem o Manuel com a desculpa de precisar dele para o ajudar a apanhar as frutas o animava…

Ficava horas e horas deitado no chão da árvore a olhar o céu, fazendo orações mentais, ou lembrando os tempos passados com a mãe.

De cada vez que fazia isso as lágrimas vinham-lhe aos olhos.

Finalmente, ao fim de duas semanas chegou outro telegrama… tinham conseguido levar a mãe para um hospital, mas a ferida tinha infeccionado e não havia nada a fazer.

Iriam partir dali a dois dias e esperavam apenas que ela conseguisse chegar com vida para o poder voltar a ver.

A avó foi logo preparar o quarto de baixo, onde ela poderia ficar e o avô ligou logo para a clínica para contratar um enfermeiro que ajudaria o pai a cuidar da mãe.

Os dois dias nunca mais passavam… parecia uma eternidade.

Finalmente chegou a quinta-feira, o dia da chegada deles…

Depois do pequeno-almoço Afonso foi dar uma volta pelo pomar… queria estar sozinho… não sabia como iria aguentar ver a mãe doente… não sabia como iria aguentar viver sem ela…

Os pessegueiros estavam carregados de flor, bem como as laranjeiras…

Nem tinha reparado nisso antes… eram tantas coisas na sua cabeça, era como se tivesse mais idade do que a que de facto tinha…

Sentia-se só e perdido e só lhe apetecia esconder a cara nas mãos e chorar.

Mas tinha de ser forte. Pela mãe e pelo pai.

E por ele.

Por volta nas duas da tarde chegou a ambulância.

Transportaram a mãe com muito cuidado para o quarto e ligaram-na a máquinas e a soro.

Depois a casa ficou em paz e Afonso foi sentar-se num cadeirão ao pé da cabeceira da cama.

A mãe estava pálida e tinha os olhos arroxeados… mas parecia tão serena a dormir.

O pai também lá estava e pegou-lhe ao colo. Notava-se que tinha estado a chorar.

Estava com ar cansado e mais magro, Afonso sabia que era muito duro para ele também.

Depois de algum tempo de silêncio o pai disse-lhe que acontecesse o que acontecesse, ele não voltaria a ficar só, que não iria partir mais, que chagava de tanta dor.

Afonso abraçou-se a ele e começou a soluçar.

O que seria deles?

Ao fim da tarde foi até a arvore… corria uma aragem fresca… deitou-se no chão e olhou o céu mais uma vez e orou baixinho ‘ -Deus, eu sei que sou só uma criança, mas eu sei que tu me escutas, por isso te peço que não me leves a minha mãe sem antes eu lhe dizer que a amo e que vou sempre sentir saudades dela… sei que ela não pode melhorar, porque está muito doente, mas peço-te que me deixes só dizer-lhe isso.

Peço-te ainda pelo meu pai, que lhe dês força a ele e a mim também, para enfrentar esta escuridão. Ámen.’

De alguma maneira sabia que Deus haveria de ouvir a sua oração…

Os dias foram passando, lentos… não havia melhoras… ainda não tinha acordado e era possível que isso não acontecesse.

O pai tentava passar muito tempo com ela, mas custava-lhe vê-la assim, e por isso por vezes saia e passeava pelo jardim…

Numa tarde subiu á árvore e sentou-se ao lado de Afonso.

– ‘Pai, será que a mãe vai acordar?

– Não sei filho, a serio que não sei.

– Eu pedi a deus que me deixasse falar com ela só mais uma vez.

-Então temos de ter fé.

-Só lhe queria dizer que a amo muito e que tenho saudades dela.

-Eu também Afonso, eu também’.

E ficaram os dois em silêncio.

Nessa noite, quando estavam sentados ao lado da mãe, sentiram-na mexer ao de leve… a mão, depois os olhos… parecia estar a acordar.

Muito devagar a mãe abriu os olhos e olhou para o marido e o filho e sorriu ao de leve.

– Pedro, Afonso… que grande sesta , ah? O que tenho eu andado a perder?

– Acalma-te e fala pouco… estás fraca. – disse o pai passando-lhe a mão no rosto com carinho.

– Eu sei. Desta é que foi! Mas não quero ver-vos tristes!

Afonso, a mãe ama-te muito – disse a custo – e nunca te vai deixar.

Deus falou comigo no meu sono e disse-me que tu querias dizer-me algo.

Afonso pegou-lhe na mãe e disse:

-Eu pedi-lhe que me deixasse falar contigo só mais uma vez para te dizer que te amo muito e que vou sentir muito a tua falta.

– Meu amor… faz de conta que eu vou fazer uma grande viagem… mas desta vez não é a África ou a Índia, é ao céu…

E assim tu já sabes onde eu estou. Não precisas escrever, porque eu vou estar sempre a olhar por ti.

Por vocês.

Fechou os olhos, cansada, e não disse mais nada. Passado um pouco o pai disse que ela tinha adormecido.

Na manhã seguinte piorou. Estava muito agitada e com dores e tiveram de lhe dar morfina.

Nunca mais voltou a acordar.

Partiu na manhã de domingo, quando o nevoeiro ainda não tinha descido e as flores do jardim ainda estavam cheias de orvalho.

Afonso sentia muita vontade de chorar, mas lá bem no fundo do seu coração sentia paz e quase gratidão, por a ter podido escutar mais uma vez.

Depois do funeral, foi sentar-se com o pai no banco do pomar em frente ao lugar onde a tinham enterrado.

As cerejeiras deixavam cair as flores e o chão parecia coberto de neve.

Ao fim de um tempo, em que choraram os dois o pai levantou-se e foi para casa… parecia esgotado, e precisava dormir.

Ele ficou ali durante muito tempo… até a noite descer.

Adormeceu, enrolado nas lágrimas e na saudade que sentia e quando acordou já era de noite…

Deitou-se de barriga para cima e ficou a olhar o céu.

Apesar de tudo sentia-a tão perto, como se o estivesse a abraçar. Fechou os olhos e deixou mais uma vez as lágrimas correrem… mas algo dentro de si lhe dizia para olhar o céu.

Olhou.

E lá longe no firmamento, onde vivem as crianças e os anjos e Deus, havia uma estrela que brilhava mais que todas as outras.

Ele sabia que a mãe tinha cumprido a promessa, bem como Deus… e que acontecesse o que acontecesse, a mãe haveria de estar sempre perto, a guiá-lo e a iluminá-lo.

Como naquele momento.

 

Página seguinte