Março 19, 2008
Chega rápido Primavera…
-Avô?! Tens a certeza que ele não vai morrer?
- Claro que tenho, com um anjo como tu a cuidar dele, vai ser um gatinho lindo e muito saudável!
- Mas avô, e se ele descobrir que eu não sou a mãe dele e não gostar de mim?
- Oh, mas ele vai gostar, porque a segunda melhor coisa no mundo a seguir à mãe são os anjos… e tu minha pequenina, és um anjo travesso mas muito amoroso.
- Avô, e como lhe dou comer? Com uma colher?
- Não, vamos comprar uma seringa pequenina para lhe dares leite, e vamos procurar o meu velho gorro da pesca para o por lá dentro.
- É tão bom ter um bichinho só meu…
- Eu sei que é… e ele também tem muita sorte por te ter. Vais ser uma boa mãe!
- Mesmo sendo pequenina?
- Principalmente por seres assim pequenina.
- Pronto, aqui está o velho gorro de lã vermelha da pesca! Põe-mo aqui dentro! Ora, já se calou, gostou do afago. Muito bem pequeno, sereno. E agora tu minha pequena mãe preocupada senta-te aqui no meu colo e conta-me como vai o nosso tesouro.
- Está bem! Ontem fui mais a tia passear à chuva nos caminhos lá de baixo. Está bonito aquilo agora avô, mal esteja sol nós vamos lá os dois não vamos?
- Vamos pois! Mas agora não que já me custa andar e com a chuva a terra fica muito escorregadia e eu ainda dou por lá alguma queda e depois é o cabo dos trabalhos para me levantar!
- E eu não quero que caias avô.
- Portanto mal esta chuva passe nós vamos lá. Mas diz-me mais coisas então.
- Sim. Eu fui passear com a tia e ela ajudou-me a apanhar uns raminhos do pessegueiro do tio Manuel. Já viste como são lindos os pessegueiros nesta altura avô? Parece neve cor-de-rosa.
E eu trouxe os raminhos para casa e pus lá na nossa caixa do tesouro. No outro dia o Hugo deu-me uma concha que ele trouxe da praia e eu também pus lá.
Quando vamos ao mar avô?
- Esta minha neta é tão passeadora! Só quer andar e andar. Essas pernas nunca se cansam?
- Não. Eu sei que as tuas se cansam mais. Mas nós podemos ir na mesma, não podemos? É muito longe o mar avô?
- É tão longe como o pensamento e tão perto como a imaginação.
- Onde fica o pensamento?
- Fica na tua cabeça.
- E a imaginação?
- Fica no teu coração.
-Então a imaginação é pequenina. Tu dizes que o meu coração é limpo e brilhante como uma gota de orvalho. As gotas de orvalho são pequeninas que eu já vi lá em cima nas flores da avó.
- Oh, mas a imaginação é maior. É do tamanho que tu quiseres e fores capaz de sonhar.
- Ela cabe dentro da nossa caixa dos segredos avô?
- Cabe sim. Mas queres pô-la lá?
- Quero. Assim não a perco.
- Oh, mas a imaginação não se perde meu amor. Dura muito e não deve nunca estar presa, mas antes libertar-se!
Por exemplo. De que cor é o céu?
- É cor de céu.
- E de que cor é a erva?
- É cor de erva.
- Muito esperta tu… anda diz lá.
- O céu é azul e a erva é verde.
- E se eu disser que o céu é rosa e a erva amarela tu acreditas?
- Não sei. Mas a erva não é verde?
- É da cor que tu quiseres que ela seja. Se disseres que ela é verde, ela é verde, mas se disseres que ela é amarela, e a imaginares amarela, ela é amarela. Assim é a imaginação. Deixa-te transformar as coisas.
- Oh. Ensina-me mais.
- Mas eu não te estou a ensinar nada pequenina. Tu já sabes fazer isto.
- Ai sei?
- Sabes. Fecha os olhos e imagina que o chão está cheio de flores, e que há rãs a saltar e pirilampos no ar. Consegues ver?
- Consigo. E há um rio com um barquinho. E um peixe laranja no rio. E há passarinhos a piar e joaninhas nas flores.
-Abre os olhos agora! O que vês.
- Vejo tudo como antes.
-Pois. Isso significa que a imaginação vem de dentro. És tu que a crias e isso não quer dizer que essas coisas que viste não possam existir.
Dentro de ti existem, e podem existir fora de ti também se tu imaginares.
- Oh. Vou guardar essas coisas todas na nossa caixa do tesouro.
- Está bem.
…(silêncio)…
- Avô, quando chegam as andorinhas? A avó ontem estava a dizer à mãe que as andorinhas estavam atrasadas. O que se passou?
- É a Primavera. Enquanto a Primavera não chegar, as andorinhas também não chegam.
- Ah! E quando chega a Primavera?
- Não sei. Queres que ela chegue?
- Quero. Muito.
- Então vamos dizer baixinho: ‘ chega rápido Primavera’.
‘ Chega rápido Primavera’… ‘ chega rápido Primavera’…
- Avô… já chegou?
- Não… vais ter de esperar um pouco… mas se pedires muito muito ela chega rápido…
- E traz as andorinhas?
- Traz sim.
-Ainda bem.
- Gosto muito de ti avô!
- E eu de ti meu bem!
- Arranjas-me o meu baloiço da árvore?
- Arranjo. Mas antes vamos lá a baixo à farmácia comprar uma seringa pequenita para dar comida ao gatinho!
-Vamos sim. Tenho de ser boa mãe.
-Vamos lá!
…
-Avô?!
- Sim?
- Olha… papoilinhas!
- Pois é.
- Se calhar a Primavera já está a chegar avô.
-Se calhar já… se calhar já…
…(risos)…

Mikha'el disse,
Março 20, 2008 às 1:02 pm
as gotas de orvalho sao pequeninas.. e limpidas..
limpidas como o teu coração de menina-mulher..
simples.. como tu..
ja chegou a primavera..